A Bíblia Sagrada revela em números 22.1-6 a narrativa do encontro entre Balaque, rei dos moabitas, e o adivinho Balaão. O rei pagão havia solicitado os “serviços” do místico que acabou por ceder aos apelos dos membros da segunda comitiva que o visitou, embora tenha oferecido resistência após o Senhor ter dito a ele que não atendesse ao convite do monarca a fim de amaldiçoar Israel. Mas este panorama oferece ao leitor a chance de analisar a conduta de dois homens cujas escolhas devem servir como importante lição de vida a fim de evitar erros ao longo da jornada de fé em Cristo. Vamos analisar a vida e o ministério destes dois profetas e, depois, observar o resultado das escolhas de cada um deles e saber qual é o perfil a ser observado como exemplo. O primeiro profeta a ser analisado é Balaão.

O religioso em questão é um profeta reconhecido pelos reis seculares. Como dissemos anteriormente, o místico foi convocado por Balaque e contava com o reconhecimento dos homens. Não é novidade que o ser humano sente-se bem em ter seu ministério reconhecido. É agradável sermos reconhecidos, atendermos telefonemas e agendarmos eventos, todo este aparato alimenta o sentimento de valorização, mas precisamos ter cuidado para não acabarmos como Balaão.

A Bíblia informa que o rei dos moabitas enviou com os mensageiros o preço do encantamento, de onde concluímos que Balaão é um profeta com preço fixo! Não é difícil agendar este tipo de profeta para ministrar em uma igreja. Basta pagar o preço exigido. Hoje em dia, existe uma tênue linha entre oferecer uma oferta justa e digna de um palestrante (ou cantor) e alugar um Balaão. Temos que evitar o engano, pois Balaão tem conhecimento acerca de Deus. Ele era considerado um profeta. Deus falava com ele.

O Senhor proibiu Balaão de seguir com os mensageiros de Balaque, entretanto ele não resistiu ao argumento da segunda comitiva, formada por homens mais honrados e com promessas ainda maiores. O adivinho pediu que ficassem para que ele consultasse o Senhor novamente. Deus o respondeu e permitiu que fosse com aqueles homens, mas com o seguinte alerta: “farás somente aquilo que eu te disser” (Nm 22.20).

Por que Deus permitiu que Balaão fosse e mais adiante enviou um anjo para lhe oferecer oposição? Porque Deus conhece o coração do homem!

Anteriormente, o Senhor já havia proibido que o místico não fosse com os mensageiros de Balaque, mas ao ouvir as promessas dos integrantes da segunda comitiva, ele não resistiu e foi consultar novamente a Deus sobre o mesmo assunto. O controverso profeta insistiu sobre um assunto que estava definido, porém o Senhor permitiu. O Altíssimo conhecia o egoísmo enraizado no coração do homem. Durante a jornada até Moabe, o adivinho estava na iminência de perder a vida, não fosse a sua jumenta na qual cavalgava alertá-lo, o ser angelical o teria matado ali mesmo. Veja o que disse o anjo ao ganancioso profeta: “te saí como adversário, porquanto o teu caminho é perverso diante de mim” (Nm 22.32).

Mais uma vez Balaão é orientado a fim de anunciar somente o que o Senhor dissesse! Observe que Balaão era realmente um profeta, ao qual Deus se revela, entretanto a sua alma estava tão somente voltada para a recompensa prometida pelo rei Balaque. A origem do personagem é incerta, mas a Bíblia indica que ele era filho de Beor, filho de Labão, portanto seria descendente de Labão. O adivinho conhecia ao Deus único e verdadeiro e também era vocacionado pelo Eterno. O Senhor comunicava-se com o místico. Contudo, neste momento de sua vida, encontramos um profeta que transformou seu ministério em uma fonte de lucros. Com Balaão aprendemos que conhecer a Deus não significa servir a Deus.

O personagem em questão é um homem que perdeu a visão de Reino. Quando observamos a conduta de um profeta em que o animal no qual está montado consegue enxergar com mais clareza que ele, então é porque o ministro enfrenta problemas. É notório que este profeta demonstra muita habilidade em impressionar com a religiosidade. Ele sabe utilizar a terminologia apropriada, sem esquecer o sacrifício e impressionar através dos artifícios de religião.

Mas a narrativa continua e no capítulo 23, Balaão ordena ao rei moabita erguer sete altares e realizar sacrifícios. Mediante a promessa de vultosa quantidade financeira, o pretenso profeta inicia o seu espetáculo e nada faz a não ser uma “Campanha dos Sete Altares”! Na verdade, não adiantava fazer nada disso, uma vez que o Senhor não atenderia aos caprichos de Balaque. Cada vez que o falso profeta insistia, Deus abençoava Israel por intermédio de Balaão.

Por fim, o místico concebe uma estratégia que, se colocada em prática, traria resultados contra o povo eleito. Balaão não conseguiu amaldiçoar Israel, em vez de pegar em armas contra o povo eleito. “Sejam seus amigos! ”, exortou o místico, nós precisamos ter a devida cautela acerca da harmonização do povo de Deus com a sociedade distanciada do Criador. Os moabitas convidaram os hebreus a fim de participarem de suas cerimônias religiosas, os convidados participaram das refeições e não demorou para que eles prestassem culto aos deuses pagãos e se envolverem com a orgia sexual que acontecia na liturgia idólatra. Balaão não alcançou seus objetivos, mas disseminou um ensino terrível que resultou em derrota para o povo de Deus.

Moisés, o outro profeta a ser analisado

Enquanto Balaão emerge como um profeta reconhecido por reis e chamado para ministrar, Moisés não é reconhecido por ninguém. O leitor não consegue sequer vislumbrar Moisés sendo convidado para ministrar aos reis e demais autoridades. Este profeta teve o seu ministério questionado até mesmo por seus compatriotas. Porém, o libertador de Israel apresenta uma característica maravilhosa que identifica um servo de Deus: Moisés sabia qual era o seu lugar! Em nenhum momento o vemos embaraçado ou em conflito com seu chamado. A preocupação do profeta não está centralizada em sua pessoa, mas com Deus.

Certa feita, O Senhor disse a Moisés: “agora, portanto, deixa-me, para que inflame contra eles a minha ira e Eu os consuma. Todavia, farei de ti uma grande nação! ” (Êx 32.10). Se fosse com Balaão, certamente a alegria ficaria estampada no rosto. “Chegou a minha vitória! Deus vai me conceder um ministério (igreja) maior ainda!”. Mas observe a conduta do homem de Deus. “Moisés, porém, suplicou ao Senhor seu Deus, e disse: ó Senhor, por que se acende a tua ira contra o teu povo, que tiraste da terra do Egito com grande força e com forte mão? Por que hão de falar os egípcios, dizendo: ´Para mal os tirou, para matá-los nos montes, e para destruí-los da face da terra´? Torna-te da tua ardente ira e arrepende-te deste mal contra o teu povo. Lembra-te de Abraão, Isaque e Israel, teus servos, aos quais tu mesmo juraste, e lhes dissestes: ´Multiplicarei os vossos descendentes como as estrelas do céu, e lhes darei toda essa terra de que tenho falado, e eles a possuirão por herança para sempre. Então o Senhor arrependeu-se do mal que dissera que havia de fazer ao seu povo”. (Êx 32.11-14).

Este profeta não está preocupado consigo mesmo, mas com o Senhor!

Enquanto Balaão é um profeta que tem preço na lapela, a Bíblia apresenta Moisés como alguém “fiel em toda a minha casa” (Nm 12.7). É o próprio Deus quem dá testemunho da fidelidade de seu servo. O leitor não vai encontrá-lo buscando lucro para si! O líder hebreu é fiel a Deus e isto é suficiente. No momento em que Deus escolheu seu irmão Arão para servir como sacerdote, ele não conspira a fim de derrubar o irmão e acumular funções. No episódio em que Eldade e Medade profetizaram no meio do arraial, Josué pediu que Moisés os proibisse, mas o líder hebreu não estava preocupado em ser o único ministro, mas suspirou: “quem dera que todo o povo do Senhor fosse profeta, que o Senhor pusesse o Seu Espírito sobre eles” (Nm 11.29).

Balaão não era ignorante quanto ao conhecimento de Deus, sabia como utilizar a terminologia, além de edificar altares e realizar feitos considerados “poderosos”. Entretanto, Moisés não apenas conhecia os caminhos de Deus, mas conhecia a Deus e cuidava em obedecê-lo. Conhecer os métodos e a teologia não são suficientes, precisamos trilhar o caminho indicado pelo Altíssimo e viver o que pregamos. Moisés não edificou sete altares, mas ele falava com Deus como quem fala com um amigo (Êx 33.11).

Balaão trouxe um ensinamento que levou o povo eleito a pecar contra Deus. Por sua vez, Moisés trouxe o verdadeiro ensinamento ao seu povo a fim de conduzi-lo a santidade. Moisés não se preocupava em agradar aos ouvintes. Ele era portador da mensagem de Deus. Ele investia tempo na presença do Altíssimo e somente divulgava o que recebia do Eterno. A sua única preocupação era agradar a Deus.

Ao contemplarmos o perfil de cada personagem, tudo indica que Balaão deve ser considerado o parâmetro a ser observado. Afinal, ele não amaldiçoou, mas “apenas” ofereceu dicas de como os moabitas conseguiriam derrotar seus inimigos sob um novo ângulo, e fazê-los sentir na pele o castigo de Deus. Contudo, devemos olhar mais além! Veja a profecia do próprio Balaão: “Vê-lo-ei, mas não agora, contemplá-lo-ei, mas não de perto; uma estrela procederá de Jacó e um cetro subirá de Israel, que ferirá os termos dos moabitas, e destruirá os filhos de Sete” (Nm 24.17). O místico profetizou acerca do messias que viria posteriormente. As suas palavras se cumpririam no futuro. Ele diz: “eu o contemplarei, mas não de perto”. Após o seu sacrifício na cruz, Jesus desceu as profundezas do Sheol a fim de proclamar a sua vitória contra as forças das trevas. Balaão assistiu a cena, mas como ele mesmo disse: “de longe!”.

Mas e quanto a Moisés? Séculos após a sua morte, um homem acompanhado de três amigos subiu o a um monte e, neste lugar, as figuras de Elias e Moisés passaram a dialogar com Jesus. O líder hebreu surge nas páginas do Novo Testamento próximo a Jesus. Lemos no livro de apocalipse (Ap. 15.3) que os vitoriosos sobre a besta são vistos entoando o cântico do Cordeiro e o cântico de Moisés. Então? Quem você acha que deve servir como parâmetro e vencedor neste conflito entre profetas?

Pr. David Mattos

Fonte. Revista Obreiro Aprovado, Ano 42 – Nº 87